domingo, 8 de agosto de 2010

Cena de Ódio


“[...]
Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiatas em modas
E fazes cartazes dos fatos que vestes
Pra que se não vejam as nodoas de baixo!
Tu, qu’inventaste as Ciências e as Filosofias,
As Políticas, as Artes e as Leis,
E outros quebra-cabeças de sala
E outros dramas de grande espetáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Eperança
E o Caminho Marítimo da Índia
E as duas Grandes Américas,
E que levaste a chatice a estas Terras
E que trouxesse de lá mais gente p’raqui
E qu’inda por cima cantaste estes Feitos...
Ty, qu’inventaste a chatice e o balão,
E o farto de te chateares no chão
Te foste chamar no ar,
E qu’inda foste inventar submarinos
P’ra te chateares também por debaixo d’água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
E que nunca descobriste que eras bruto,
E que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
E a este progresso chamas Civilização!”

(NEGREIROS, José de Almada. Obra completa de Almada Negreiros. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 2005)

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